Vencendo a batalha diária da maternidade

Pressão social, sobrecarga de trabalhos domésticos e pouco autocuidado colocam as mulheres com filhos como o grupo mais propenso a problemas de saúde mental

Por André Frutuoso

*Matéria publicada na edição 118 da revista Mais Saúde

Na história de literatura de fantasia infanto-juvenil, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkabam, lançado também como filme, em 2005, a personagem Hermione Granger faz uso de um dispositivo interessante: o vira-tempo. Na aventura, essa espécie de relógio mágico permitia que a bruxinha voltasse algumas horas no tempo, podendo acompanhar várias aulas que se passavam no exato instante uma das outras. Dessa forma, ela ficava presente em dois lugares diferentes no mesmo momento e o seu dia de estudo durava mais.

Apesar de não passar de um faz de conta, o vira-tempo viria muito a calhar para muitas mães, principalmente depois do começo da pandemia. Se já era difícil conciliar carreira, cuidados domésticos e atenção à família numa rotina normal, com as aulas e trabalhos remotos as coisas se agravaram. 

Um bom exemplo disso vem da Inglaterra. A família Radford é conhecida por estrelar um reality show na TV do Reino Unido, acompanhando o seu cotidiano, já que eles são em, pasmem, 22 filhos. Recentemente, em um vídeo para o canal da família no YouTube, a matriarca Sue Radford conta da batalha constante que é fazer com que a casa fique em ordem e ainda precisar garantir que os filhos realizem as atividades educacionais, já que 9 de seus herdeiros estão em idade escolar.

Sobrecarregadas

Apesar de o exemplo ser um pouco exagerado e até mesmo fora do contexto de quase todas as pessoas, a batalha diária é vivida por muitas outras mães pelo mundo, principalmente no Brasil. Uma delas é a professora Carline Schillreff. Ela conta que sua rotina mudou drasticamente desde que as medidas de isolamento tiveram que ser implementadas. “É necessário ter uma disciplina muito rígida para conseguir conciliar os horários. Durante o dia dou aula online para meus alunos e durante a noite reservo esse tempo para auxiliar meu filho nas tarefas e momentos familiares”, conta.

A sensação no final do dia não podia ser outra senão a sobrecarga. Carline comenta que se sente bastante dessa forma, ficando também, muitas vezes, sem saber como conduzir os trabalhos. Ela reclama que seu dia se torna curto, além das atividades passarem a ter um excesso de burocracia, que demanda mais tempo.

Mais um fator que ajuda a colocar lenha nessa fogueira é que nesse novo modelo de trabalho, os limites entre profissional e doméstico estão muito indefinidos. “Com a pandemia, a escola veio para dentro de minha casa, o que ficou bastante complicado, pois, ao mesmo tempo, sou a mãe e professora. E com o filho pequeno, ele não tem entendimento da real situação”, desabafa.

Origem cultural

A maior parte desse problema vem de questões culturais e sociais. É o que explica a psicóloga Talita Abreu, CRP 08/15099. Desde que as mulheres passaram a sair de casa para trabalhar, seja por necessidade financeira, ou para realização pessoal, passaram a acumular essas novas funções com as que já possuíam no ambiente doméstico. 

E, de fato, durante a pandemia a jornada tripla, como é conhecido o hábito de somar emprego no mercado com os serviços em casa, aumentou ainda mais. “Eu diria que agora é quádrupla, quíntupla. A mulher tem que dar conta da casa, do filho, do marido, da questão das atividades escolares. E aí, não existe uma mãe que não se sinta um pouco culpada por não estar presente na vida do filho, ou achar que não está presente”, lembra a profissional, que tem bastante experiência no assunto, já que ela mesma é mãe de três de filhos.

É preciso equilíbrio

A sensação que precisa tomar conta de tudo durante as 24 horas do dia é desgastante. Por isso, é importante, segundo Talita, que as mães busquem equilibrar o peso que atribuem a suas tarefas. Por exemplo, não adianta passar quase todo dia focada nos filhos, se parte desse vai ser dominado pela sensação de estresse. 

Nesse sentido, ela pondera que para que a balança deixe de pender sempre para o lado negativo, é necessário buscar a saúde mental. “Isso não é só procurar atendimento psicológico e terapia. É fazer também algo que faça bem para sua saúde. Academia, exercícios, pilates”, relata a especialista. 

Esse é mais um ponto que a professora Carline deixou de conseguir fazer, o que ajuda a aumentar o esgotamento que sente. “Antes da pandemia eu frequentava academia, fazia caminhada, mas agora não estou tirando tempo só para mim, sempre que a gente faz algo diferente envolve a família, e assim, conduzimos a vida”, reflete.

Cuidar de si é cuidar da sua família

Apesar dos fatores que não podem ser facilmente controlados, é importante conseguir um tempo para uma atividade, por mais simples que seja, e não se culpar por tirar esse momento de autocuidado. Talita explica que ajuda nesse ponto quando a mulher lembra que a criança não fica desamparada em casa quando ela faz algo que seja voltada ao seu bem-estar, há sempre um planejamento envolvido para que os filhos estejam assistidos.

 Assim sendo, também é essencial não hesitar em pedir ajuda, seja para as pessoas da família, ou para uma prestadora de serviço, como babá, por exemplo, quando o orçamento doméstico permite.

A consciência que o bem-estar da mãe se reflete em toda a família é de suma importância. Isso é ainda mais relevante no contexto atual. A psicóloga explica que o público feminino é quem mais sofre de males como depressão e ansiedade. “E na pós-maternidade é maior ainda, chega a índices de 70%”, afirma.

Nesse sentido, a dica da escritora e jornalista norte-americana Melinda Blau, uma das autoras da série de livros “A Encantadora de Bebês”, pode ser posta em prática: as mães precisam encontrar o caminho do meio entre as suas necessidades e a dos filhos. “Se eu não estou bem, minha família também não estará bem”, afirmou ela em uma apresentação no Seminário Internacional Mãe Também é Gente, organizado em 2016, pela revista Pais&Filhos.

Não existe a mãe perfeita

Carline, apesar de estar sentindo na pele os efeitos da jornada tripla nos tempos de pandemia, tem buscado ser mais consciente sobre as questões que envolvem a maternidade. “Referente à ‘mãe perfeita’ é difícil de falar. O que é perfeito para uma, pode não ser para outra” reflete a professora. 

Entretanto, isso não quer dizer que ela não sinta um pouco de pressão social. Uma forma de lidar com essas sensações negativas é programar um espaço na rotina para brincar com o filho ou assistir filmes com ele. “Se ficarmos o tempo todo se culpando, se cobrando, não vivemos, nunca vamos ser a ‘mãe perfeita’, o que devemos fazer é dar o melhor de nós e muito amor para que o filho se sinta seguro para enfrentar os desafios da vida”.

Quem também compartilha um relato pessoal para as colegas de maternidade é a psicóloga Talita Abreu. “Tem dias que eu me sinto presa, mas tem dias que eu consigo dar conta de todos os meus outros papéis, sempre com a ajuda das pessoas que tenho à minha volta. Eu diria para as outras mães que estamos todas juntas, é importante ter essa troca de conhecimento”, aconselha.

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